quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

matéria bruta




no fundo das mãos há o ponto cego
em que ninguém pode tocar.
por onde passa a corda usada pelos presos
para a fuga.




posso começar pelo fosso.
pela sombra em que éramos a vertigem do pai.
a luz golpeada nos pés ao nascer.
ao nascer
e não estar na vida.




a água toma o fôlego restante dos dias.




fotografia     robert moses joyce
palavras     luciana marinho

domingo, 15 de dezembro de 2013

rota



de tudo haveria de ficar para nós um sentimento
longínquo de coisa esquecida na terra.

manoel de barros







a criança fala sobre o caminho de volta 
e as pedras inscritas no punho paterno. 
fala o quanto prefere os dias chuvosos
— ela e os bichos que descem ao chão, 
às pequenas poças. 
o mundo fica maiúsculo
e as palavras, velhos apêndices. 

ela paira entre seu corpo
e o quarto materno. 

também estava prestes a se deixar lavrar
por tanta vida. 

sabia, fora do pensamento, que não estava voltando. 
estava indo, como nunca antes, 
a não familiar casa da infância. 
onde outras crianças eram o sono 
e sua curvatura de lua. 




fotografia     b. berenika
palavras     luciana marinho

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