sábado, 1 de junho de 2013

carta



23 de dezembro



t.,


avistei um homem perdido. seus passos sem território eram os meus. penso nos filhos que morrem, a primeira vez, no sangue das mães. o cheiro de hortênsias os cobre e eu o sinto quando eles passam por nós. como em mim. nestes dias em que desconheço para que servem tantas coisas, a lentidão ocupa a mobília e a luz que estende os vitrais pelo interior da casa. faz frio e só as crianças vivem todas as estações querendo ir para fora de suas casas. seguem o terral como a um olho furioso.

  
c.








m
fotografia    aëla labbé
palavras    luciana marinho

domingo, 26 de maio de 2013

uma só terra


quem viveu nessa casa além de nós?
anna akhmatova






desce-me como uma sede
a réstia do que sou, amortecida, fundida em pedra.
dálias ladeiam os vergões do corpo,
as frestas da casa na abertura dos olhos.
há uma voz, funda, que não fala do dia seguinte.
água de minhas mãos
despenhadeiro rodeando
meu pescoço.


fotografia     aëla labbé
palavras     luciana marinho

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