sexta-feira, 3 de abril de 2015

transversais






I

surgem respirando as raízes afundadas
os olhos exilados em porões de outro mundo.
contra a luz
a sombra deixa enormes as víboras.

II

onde mais viverei?
o quarto era escuro e os objetos 
eram apalpados pelo hálito dos mortos.
as crianças comiam com a mão
e, às vezes, passavam o dia na água, esquecidas


III

não respondia pelo nome.
chegou aos sete anos com neblina encardindo as cavidades.
a pupila dilatada em pranto de nascer
quimera dentro de uma concha arrancada de mar nenhum.

IV

corria com os punhos fechados 
para o soluço não cair da mão.




fotografia     lauren rosembaum
palavras     luciana marinho

quinta-feira, 12 de março de 2015

ontens





guardou os dentes em uma caixinha
para contar a história das idades
e do espelho que demora a dar contorno
ao desamparo da correnteza no olhar.
aquela maneira da sobrancelha se portar, tão a seu pai,
em meio ao clarão do dia, também era lembrança 

na caixinha. fomos, pai, para onde?
além do vento se curvando na concha
e enterrando o ruído de teu coração em meu ouvido?






fotografias    elena kalis e cole thompson
palavras    luciana marinho

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