Era uma força
oceânica nas manhãs tão cedo, pensou, tocando o olho d’água. As sementes
estavam exaustas. Sentiu suor entre os dedos. Pensou em seu medo de não ser abrigo
àquela hora em que tudo pode estar por arrebentar. Desmedia o esforço para levar as
sementes de um canto a outro dos continentes, habitando o mistério que
encadeia os mundos vividos. Um passo em falso dentro das estações poderia
preservar o inverno no peito das papoulas. O inverno fazia-o sentar à
beira do tempo, prestes a cair no regaço das esferas. Porque o inverno traz um
sentimento de orfandade, uma brancura que respinga na íris, um respirar o
queimor do frio... As asas se desfazem na retenção do pulmão e renascem no
gesto de sobreviver com a terra. Sobreviver com a terra.
fotografias e palavras luciana marinho


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